Quem Cuida Empobrece — E Este País Ainda Não Percebeu Isso

Uma conversa franca sobre a realidade invisível do cuidado no Brasil

ECONOMIA DO CUIDADO

Luciana garcia

8/6/20266 min read

Economia do Cuidado
Economia do Cuidado

A realidade que ninguém te conta

Costumo dizer que quem cuida empobrece. Eu mesma só compreendi o quanto custa caro ser pobre no Brasil depois que a minha filha nasceu. Porque quando você está inserida na lógica do cuidado, e especialmente no cuidado da pessoa com deficiência, tudo se torna muito mais desafiador. A gente tá falando de crianças que precisam de uma atenção e um suporte maior do que as crianças típicas que, pela lógica, deveriam ter um respaldo maior da união e da própria sociedade.

Mas o que acontece no Brasil hoje é justamente o inverso. Quando a mãe recebe o diagnóstico de um filho, 78% dos genitores vão embora. E isso antes da criança completar 5 anos de idade! A gente sabe que o número de dispensas do trabalho pós licença maternidade no Brasil é altíssimo, mas ele fica realmente assustador quando a mãe é atípica. 70% saem do mercado de trabalho, seja por dispensa do empregador, seja por falta de rede de apoio pra cuidar da criança enquanto ela trabalha.

O Brasil finalmente passou a reconhecer o cuidador como sujeito de direitos, mas existe ainda um longo caminho a ser percorrido para que tenhamos de fato um país que enxerga o cuidado reconhecidamente como base da nossa sociedade, oferecendo, entre outras coisas, um suporte estruturado à saúde mental de quem cuida.

As mães estão exaustas, e não temos uma política pra pensar nessas mulheres enquanto oferecemos assistência para o desenvolvimento dos filhos. Quando falamos das cuidadoras de acamados então, a situação fica ainda pior. E quando olhamos para a filha que largou a própria vida pra cuidar da mãe com Alzheimer, ou o neto que acompanha o avô em tratamento oncológico, percebemos que o problema é ainda maior do que imaginamos. O cuidado não escolhe idade, gênero ou condição social — mas quem carrega esse peso nas costas, quase sempre, é uma mulher.

O que já existe na Política Nacional de Cuidados

A Política Nacional de Cuidados foi instituída pela Lei nº 15.069/2024 e implementada por meio do Plano Nacional de Cuidados ("Brasil que Cuida"). Pela primeira vez, o Estado brasileiro reconhece que cuidar é um direito, um trabalho e um bem público, e que o cuidado não pode continuar recaindo quase exclusivamente sobre as mulheres. O problema é que reconhecer não basta para fazer com que as coisas mudem de fato na vida de quem mais precisa.

Entre os principais compromissos estão:

Reconhecimento do cuidador familiar não remunerado;

Ampliação da oferta de serviços públicos de cuidado;

Redução da sobrecarga das famílias;

Incentivo à divisão mais equilibrada das responsabilidades de cuidado;

Valorização do autocuidado de quem cuida;

Integração entre saúde, assistência social, educação e trabalho.

O Plano organiza 79 ações distribuídas em cinco grandes eixos, sendo que o primeiro é dedicado justamente aos direitos de quem necessita de cuidados e de quem cuida sem remuneração. A pergunta que eu te faço é: quem vai fiscalizar e garantir o cumprimento desses compromissos em Brasília?

Esses dias, quando eu conversava com uma apoiadora sobre a maternidade atípica, ouvi a seguinte frase: "mas você tá acompanhando que vai ter agora um benefício pra mães atípicas?". Quero chamar a sua atenção aqui pra uma coisa importante: ter um benefício, receber um salário (mísero), é só a pontinha de um iceberg.

O custo invisível do cuidado

E agora eu peço a sua atenção e paciência porque a história é longa: vou te contar uma história aqui de maternidade atípica que ninguém faz ideia. A Maya (minha filha) nasceu com uma cardiopatia severa chamada DSAVT e precisou fazer uma cirurgia de grande porte aos 3 meses de vida para poder reconstruir as paredes internas do coração. Após a cirurgia, entre outras coisas, nós passamos 3 meses sem poder pegá-la pelo peito e costas. Apenas segurando pela cabeça e bumbum.

Nesse período, por conta de toda fragilidade que o seu corpinho sofria, ela desenvolveu APLV (alergia à proteína do leite da vaca). A proteína no leite é muito difícil de ser quebrada, e ela fica na corrente sanguínea da mãe por até 20 dias, se a lactante usar um copo que, mesmo lavado, foi usado como recipiente para algo que contém leite. Por conta disso, a Maya precisou tomar uma fórmula especial que custa R$ 250,00 a lata. Um bebê consome 16 latas por mês. Faça as contas: R$ 4.000,00/mês. Dois salários-mínimos e meio só de leite.

Felizmente o SUS oferece essa fórmula pela Farmácia de Alto Custo – e é aqui que a coisa começa a ficar complexa. "Que ótimo que o SUS dá esse leite, maravilha!" – só que não acaba aí.

Lembra daquela pesquisa que mostra que 78% das mães atípicas estão sozinhas? Pois é. Agora eu quero que você imagine uma mãe periférica, sem rede de apoio, com uma criança recém-nascida e recém-operada precisando pegar duas conduções para atravessar a cidade, ficar 6 horas em pé numa fila de AME com essa criança e depois disso tudo sair de lá com a criança num braço e duas caixas pesadas de leite no outro. Se ela vencer essa prova de resistência, eu duvido que ela consiga subir nos dois ônibus pra voltar pra casa.

Essa pequena história, que é em parte a minha história, dá uma noção do quão desafiadoras são as rotinas da maternidade atípica. E é exatamente por isso que a saúde mental de quem cuida não pode continuar sendo tratada como um detalhe. O adoecimento psíquico não é uma possibilidade remota. É uma consequência direta de um sistema que não foi pensado para quem cuida.

Onde o sistema falha com a gente

Não existe hoje uma política nacional específica, robusta e permanente de saúde mental voltada aos cuidadores familiares. Na prática, a gente depende da sorte: se o seu município tem um CAPS por perto ou se a UBS tem psicólogo. Mas esses serviços não foram desenhados para o cuidador.

No Movimento Maternidade Atípica, recebo cotidianamente pedidos de ajuda de mães esgotadas, que estão à beira de tirarem a própria vida devido à exaustão. E não é para menos:

Não há protocolo nacional de rastreamento de burnout do cuidador;

Não existe linha de cuidado específica;

Não há direito garantido a acompanhamento psicológico periódico;

Não existe programa nacional de prevenção ao adoecimento do cuidador.

A nossa grande falha estrutural é que a gente só olha para o problema no Brasil quando ele já está instaurado. O SUS costuma atender o cuidador quando ele já está deprimido, ansioso ou em crise de pânico. É uma lógica reativa, e não preventiva.

O que eu vou lutar para mudar

Precisamos ter em Brasília representantes que entendam a realidade doméstica do dia a dia. Por isso, eu defendo cinco pontos centrais:

1. Protocolo nacional de rastreamento do sofrimento psíquico: Consulta anual obrigatória de saúde mental para cuidadores familiares intensivos na Atenção Primária.

2. Grupos terapêuticos nos locais de tratamento: Oferecer dinâmicas e acolhimento para o cuidador no mesmo local e horário em que a pessoa cuidada está em terapia. Chega de ser apenas "a pessoa que segura a bolsa".

3. Teleatendimento especializado: Psicólogos qualificados para entender a realidade do cuidado, sem que a mãe precise atravessar a cidade e deixar quem precisa de cuidado sozinho.

4. Indicadores no Observatório do Cuidado: Não tem como legislar sem dados. Precisamos medir o tamanho do burnout das nossas cuidadoras para cobrar resultados.

5. Capacitação das equipes de Saúde da Família: Treinar quem está na ponta para identificar os sinais de exaustão antes que a tragédia aconteça.

É por isso que estou pedindo o seu voto

Eu não fui pra política porque quis ser política. Eu fui porque cansei de esperar. Cansei de ver mães como eu — e tantas outras cuidadoras que nem chegam a ser mães, mas carregam o mesmo peso — sendo invisibilizadas.

As cinco propostas que você acabou de ler não são promessa de campanha. São coisas que eu vivi na pele e sei que funcionam. Vou lutar pra colocar isso em prática em Brasília, fiscalizando cada uma das 79 ações do Plano Nacional de Cuidados e garantindo que o SUS chegue na casa de quem mais precisa.

Se você é cuidadora, se você tem uma cuidadora na família, se você conhece alguém que vive essa realidade — você sabe do que eu estou falando. E você sabe que isso não pode esperar mais. Me ajuda a levar essa pauta pro lugar onde ela precisa estar: onde se faz lei neste país.

Notas e fontes:

1. Dados sobre abandono de genitores (78%) e saída do mercado de trabalho de mães atípicas (70%): LOURENÇO, Tainá. Luta de mães de crianças autistas é marcada pela dor do abandono. Jornal da USP, São Paulo, 22 dez. 2020. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/luta-de-maes-de-criancas-autistas-e-marcada-pela-dor-do-abandono/. Acesso em: 4 ago. 2026.2.

2. Lei nº 15.069/2024 — institui a Política Nacional de Cuidados: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l15069.htm

3. Plano Nacional de Cuidados ("Brasil que Cuida") — documento oficial do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome: https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/brasil-que-cuida/plano

Imagem da capa gerada ppor IA.

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